11 de abril de 2022

Autismo: desafio da escrita e da construção de narrativas pessoais

Um dos muitos desafios acadêmicos para pais, educadores e terapeutas de crianças com autismo está voltado para a aquisição das habilidades para escrever bem. Isso porque essas habilidades integram maior comunicação e estão relacionadas com melhores resultados de qualidade de vida para todos.

A escrita é uma habilidade complexa que requer o recrutamento simultâneo de habilidades motoras, linguísticas, cognitivas e sociais. Além de dificuldades de comunicação social e comportamentos restritivos e repetitivos o domínio da escrita também aparece como desafio para vários indivíduos com autismo: na linguagem estrutural (gramática), na cognição social – tomada de perspectiva como aponta o texto de Baron- Cohen S. (2000):

 

Dificuldade em entender outras mentes é uma característica cognitiva central das condições do espectro do autismo. Descobriu-se que crianças normais de 3 a 4 anos já sabem que o cérebro tem um conjunto de funções mentais, como sonhar, querer, pensar e guardar segredos. Em contraste, as crianças com autismo parecem saber sobre as funções físicas, mas normalmente não mencionam qualquer função mental do cérebro. Crianças com autismo, quando estudadas em condições experimentais, demonstraram ter dificuldades tanto na produção do engano quanto na compreensão quando alguém as está enganando.[1]

 

Os atrasos de linguagem, a ausência completa de comunicação, conhecimento linguístico inadequado, prejuízos na construção do discurso em crianças com autismo são déficits conhecidos dos pesquisadores sobre o transtorno, mas pouco se fala sobre as dificuldades de planejamento e produção de enunciados complexos que são necessários no ato da conversação e também da escrita. Esses requerem uma integração de conteúdos fonológicos, morfossintáticos, semânticos e discursivos.

 

Na pesquisa de Hilvert et al, de 2019, a autora e seus colaboradores apontaram a dificuldade em crianças no TEA de contar narrativas coerentes, sejam elas pessoais ou fictícias, principalmente, em se tratando de falar de algo que aconteceu: eventos passados. Suas narrativas pessoais são menos diversificadas e essa dificuldade também foi encontrada na escrita, os textos são nitidamente mais curtos e apresentaram maior dificuldade de incluir os elementos da história (espaço, conflito, clímax, desfecho).

 

As narrativas pessoais são muitas vezes baseadas em experiências sociais, o que nos leva à Teoria da Mente, a capacidade de entender os estados mentais dos outros e de si mesmo (crenças, desejos, intenções) e entender que as pessoas pensam de maneiras diferentes. Então parece claro que a Teoria da Mente, a falta dessa perspectiva sobre o outro e de si mesmo, influenciaria a narrativa oral pessoal, tanto quanto influenciaria a narrativa pessoal escrita. O que aponta para uma escrita de narrativa pessoal menos qualificada no TEA.

 

Diferenças comportamentais, redirecionamento de atenção, estímulo adicional e assistência inicial na geração de tópicos também são apontados, sendo necessários lembretes para continuar escrevendo, ajuda para gerar a ideia ou tópico e estímulos para escrever (iniciar e concluir a escrita – dificuldades). Todas essas evidências consideram a variabilidade existente de um indivíduo para outro, considerando a capacidade de leitura, o desenvolvimento socioemocional de cada um e as metodologias envolvidas.

 

As dificuldades são:  em nível da frase e texto, começar e manter-se na tarefa de escrever até o final, respeitar a estrutura com início meio e fim e o fato da teoria da mente estar relacionada à diversidade sintática e à qualidade da escrita foram os resultados apontados no estudo de Hilvert et al(2019).

 

As famílias e as escolas muitas vezes ignoram tais dificuldades e seguimos de acordo que escrever bem e de modo legível é importante para o progresso acadêmico, para o desenvolvimento social, comunicativo e para a construção da autoestima.

Mas os desafios que esses indivíduos enfrentam, estão, aparentemente, em vários domínios da escrita. Os déficits vão de problemas com funções motoras finas e grossas, que dificultam a manipulação precisa da escrita; com relação ao funcionamento sensorial, alguns experimentos sugerem que esses indivíduos apresentam déficits proprioceptivos, o que prejudicaria a caligrafia fluida e automática, já que podem apresentar baixa capacidade para sentir onde seus membros estão no espaço que ocupam.

No estudo realizado por Fuentes et al (2009) observou-se que indivíduos no TEA apresentam dificuldades gerais no controle motor, muitos deles podem demonstrar macrografia ao dimensionar as letras numa forma maior, talvez numa tentativa de compensar as dificuldades com o controle motor fino. O que só ressalta que as habilidades motoras predizem o desempenho da escrita, as terapias direcionadas para o controle motor são a melhor abordagem para melhorar a escrita em indivíduos com autismo. Além de aprimorar o controle motor, outras estratégias podem ajudar no processo de aquisição e fluidez da escrita.

É sabido que indivíduos com autismo têm um viés visual para focar mais em detalhes, em oposição ao global, desse modo diferenças na percepção visual podem afetar a forma como as letras são percebidas e reproduzidas. Usar recursos visuais, como organizadores gráficos para histórias e textos, ou quadros com frases para serem completadas com substantivos ou adjetivos “Eu não gosto de…. porque é …”, podem ser recursos mnemônicos.

Tornar a escrita significativa para o aprendiz, motivar para que ele escreva pedidos como: “Eu quero o …”, nomes de pessoas, palavras de interesse, bilhetinhos para colegas e pessoas do convívio podem tornar o hábito mais satisfatório.

Usar sequências instrucionais, modelos e repetição, além de sempre apoiar a escrita com reforço positivo é muito eficaz. O uso de dicas ou ajudas também são recomendados desde que haja o desvanecimento de dica ao longo do processo para gerar independência na escrita. Por exemplo, apontar para um indicador de frase – “Era uma vez…” em seguida apontar para uma imagem que levará o aprendiz a terminar a frase. Esperar 10 segundos para uma resposta, apresentar opções e esperar novamente, apontar a resposta correta ou usar o encadeamento para trás ou para frente – construindo uma frase, mas deixando de fora o último ou o primeiro passo.

Incentivar a autoverificação é uma forma importante para os aprendizes aumentarem a autoestima por verificarem o seu próprio trabalho, então: o aprendiz fala, escreve e depois lê o que escreveu, verificando seu trabalho.

[1] Disponível em: Teoria da mente e autismo: uma revisão

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0074775000800105?via%3Dihub Acesso em:10 mar 2022.

 

Referências:

Avaliação da Escrita Narrativa Pessoal em Crianças com e sem Transtorno do Espectro Autista

Elizabeth Hilvert ,  Denise Davidson ,  e Perla B. Gámez  Disponível em: https://pubmed-ncbi-nlm-nih-gov.translate.goog/32863860/ Acesso em 09 mar 2022.

 

BARON-COHEN, S. Teoria da mente e autismo: uma revisão. Disponível em:

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0074775000800105?via%3Dihub Acesso em:10 mar 2022.

 

Crianças com autismo apresentam deficiências específicas de caligrafia

Christina T. Fuentes , BS, Stewart H. Mostofsky , MD, e Amy J. Bastian , PhD Disponível em: https://www-ncbi-nlm-nih-gov.translate.goog/pmc/articles/PMC2777071/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-BR&_x_tr_pto=sc Acesso em: 09 mar 2022.

 

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Sandra Paro

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Sandra Paro é mãe, professora, estudiosa, idealizadora da ABA+, analista do comportamento, consultora de recursos terapêuticos, corajosa, disciplinada e ensaísta para o ABA+
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