8 de janeiro de 2026

Marcos do Desenvolvimento Infantil: quando observar se torna cuidar, ensinar e transformar

Falar sobre marcos do desenvolvimento infantil é falar sobre histórias em construção. Cada criança se desenvolve a partir da interação entre biologia, ambiente, vínculos e oportunidades de aprendizagem. Ainda que existam trajetórias esperadas — descritas por diferentes áreas da ciência —, o desenvolvimento não acontece em linha reta, nem no mesmo ritmo para todos.

Na perspectiva da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), os marcos do desenvolvimento não são vistos apenas como listas de habilidades que “devem” surgir em determinada idade, mas como comportamentos observáveis, que emergem, se fortalecem ou se reorganizam a partir das contingências presentes no ambiente.

O que são marcos do desenvolvimento?

Os marcos do desenvolvimento infantil são referências científicas que descrevem comportamentos e habilidades que costumam aparecer ao longo da infância, organizados em grandes áreas como:

Comunicação e linguagem

Interação social

Cognição e resolução de problemas

Motricidade ampla e fina

Autonomia e autocuidado

Regulação emocional e comportamento adaptativo

Além disso, é importante reconhecer que os marcos do desenvolvimento não são uma lista única e fixa: eles variam conforme a fonte e o protocolo utilizado (como OMS, CDC, Sociedade Brasileira de Pediatria, Gesell, Denver II e Portage), mas convergem na mesma lógica de organização por áreas do desenvolvimento. De modo geral, os documentos de referência apontam cerca de 30 a 40 marcos principais ao longo dos primeiros cinco anos de vida, e muitas instituições adotam 36 marcos centrais como um recorte “padrão” para materiais educativos, distribuídos tipicamente entre motricidade grossa, motricidade fina, linguagem/comunicação, cognição e socioemocional. Já para acompanhamento mais sensível e decisões mais bem fundamentadas — especialmente quando há suspeitas ou demandas clínicas e educacionais (como TEA, TDAH, T21 ou atrasos globais) — recomenda-se observar 60 marcos ou mais, pois isso favorece a identificação precoce de sinais, o planejamento de intervenções e o monitoramento de microconquistas. Nessa perspectiva, os marcos também podem ser compreendidos como marcos comportamentais: repertórios observáveis e ensináveis, que emergem e se consolidam conforme as contingências e oportunidades de aprendizagem presentes no ambiente.

Esses marcos do desenvolvimento vêm sendo mapeados e validados por diferentes áreas do conhecimento — da psicologia do desenvolvimento às neurociências, da pedagogia às ciências do comportamento — a partir de observações sistemáticas e estudos normativos com crianças em diferentes faixas etárias e realidades socioculturais, o que sustenta a construção de protocolos e escalas amplamente usados no monitoramento e na avaliação do desenvolvimento infantil. 

Marcos não são metas rígidas — são sinais.

Um ponto essencial é compreender que marcos não são regras, tampouco instrumentos de comparação entre crianças. Eles funcionam como sinais de alerta, orientação e planejamento.

Na prática, observar marcos do desenvolvimento permite:

– Identificar precocemente atrasos ou diferenças no desenvolvimento

– Planejar intervenções mais adequadas e individualizadas

– Oferecer experiências que ampliem repertórios importantes

– Ajustar expectativas de adultos, famílias e escolas

– Promover inclusão com base em dados, e não em suposições

Na Análise do comportamento, essa observação é sempre feita considerando o contexto, a função do comportamento e as oportunidades de ensino, e não apenas a idade cronológica.

O olhar da ABA sobre o desenvolvimento infantil

A Análise do Comportamento entende o desenvolvimento como um processo contínuo de aprendizagem. Comportamentos surgem, se mantêm ou se modificam porque produzem consequências relevantes para a criança.

Assim, quando olhamos para um marco — como o contato visual, o brincar funcional, a imitação, o uso de palavras, a espera, o seguir instruções ou a autonomia no autocuidado — perguntamos:

Em que contextos esse comportamento aparece?

Com quem a criança o emite?

O que acontece depois que ela o emite?

Quais condições favorecem ou dificultam sua ocorrência?

Essa forma de olhar transforma o marco em ferramenta clínica, pedagógica e afetiva, permitindo intervenções mais éticas, eficazes e respeitosas.

Desenvolvimento é relação

Nenhuma habilidade se desenvolve isoladamente. Linguagem, socialização, emoção e cognição caminham juntas. O desenvolvimento acontece no encontro: com o outro, com o ambiente, com os objetos, com as rotinas e com as possibilidades de escolha.

Por isso, falar de marcos do desenvolvimento é também falar de:

– Qualidade das interações

– Segurança emocional

– Acesso ao brincar

– Tempo de presença do adulto

– Organização do ambiente

– Oportunidades reais de participação

Por que olhar com atenção muda tudo?

Quando adultos aprendem a observar o desenvolvimento com mais sensibilidade e conhecimento, deixam de ver apenas “o que falta” e passam a enxergar o que já existe e pode ser ampliado.

Esse olhar:

– Reduz rótulos e julgamentos precipitados

– Fortalece vínculos

– Direciona melhor o ensino

– Potencializa a autonomia

 

– Promove inclusão baseada em evidências

Um convite à observação consciente

Observar marcos do desenvolvimento é um exercício de presença. É perceber pequenos avanços, reconhecer esforços invisíveis e entender que cada conquista carrega um caminho inteiro até acontecer.

Mais do que perguntar “já faz?”, talvez a pergunta mais potente seja: “Em que condições essa habilidade pode florescer?”

É nesse espaço entre ciência, afeto e observação que o desenvolvimento infantil ganha sentido — e onde cada criança encontra mais chances de aprender, participar e pertencer.

Referências

BAYLEY, Nancy. Bayley Scales of Infant and Toddler Development. 3. ed. San Antonio: Harcourt Assessment, 2006.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Developmental milestones. Atlanta, 2021.

DENVER DEVELOPMENTAL MATERIALS INC. Denver II: Developmental Screening Test. Denver: Denver Developmental Materials, 1992.

FRANKENBURG, William K. et al. Denver Developmental Screening Test. Denver: University of Colorado Medical Center, 1967.

GESELL, Arnold. The First Five Years of Life. New York: Harper & Brothers, 1940.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Guidance on developmental monitoring and early identification. Genebra: OMS, 2020. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 19 nov. 2025.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

PARTINGTON, James W. The ABLLS-R: assessment of basic language and learning skills – revised. Pleasant Hill: Behavior Analysts, Inc., 2010.

PORTAGE PROJECT. Portage guide to early education. Madison: Cooperative Educational Service Agency, 1976.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Cartilha de desenvolvimento: 2 meses a 5 anos. Rio de Janeiro: SBP, 2024. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/_24327e-Cartilha_de_Desenvolvimento-2m-5anos_compressed.pdf. Acesso em: 7 jan. 2026.

SPARROW, Sara S.; CICCHETTI, Domenic V.; SAULNIER, Catherine A. Vineland adaptive behavior scales. 3. ed. Minneapolis: Pearson, 2016.

SUNDBERG, Mark L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008.

VALIATI, Marcia Regina Machado Santos; BROMBERG, Maria Cristina; ANTONIUK, Sérgio Antonio; RIECHI, Tatiana Izabele Jaworski de Sá. Desenvolvimento da criança e do adolescente: avaliação e intervenção. 1. ed. Curitiba: Íthala, 2011.

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