31 de agosto de 2020

Um aprendizado profundo

por Sandra Paro
Quando a criança nasce, nasce também uma mãe e um pai, uma família e os desafios, mas de uma forma sutil, suave, em termos de planos, desafios, no campo do possível, do entendível.

O que não parece tão compreensível quando a criança não apresenta um desenvolvimento típico é o seguinte: se antes do nascimento os pais se preparavam para viver a aventura de educar uma criança, agora eles seguem pelo terreno acidentado do desenvolvimento atípico… como  preparar para o mundo esse ser com necessidades tão específicas?

De acordo com a educadora Valéria Assunção: “O desenvolvimento infantil atípico é caracterizado pela apresentação de um sistema biológico prejudicado em conjunto com um ambiente que falha em desenvolver comportamentos normatizados, o desenvolvimento atípico também pode ocorrer em crianças que apresentam o sistema biológico preservado, mas que estão expostas a ambientes desfavoráveis para o desenvolvimento adequado, fatores econômicos e sociais que impedem a aprendizagem, acesso a estimulação e reforçamento de comportamentos negativos”.

Síndrome de Down, síndrome de Torett, Irlen e transtornos como o TEA – Transtorno do Espectro Autista ou Transtorno Global do Desenvolvimento, TDAH ou D.I. – Deficiência Intelectual fazem parte dos diagnósticos que necessitam de acompanhamento de equipe multiprofissional, intervenções e estimulação para que a criança em questão possa adquirir habilidades compatíveis com uma vida diária mais autônoma.

A busca da autonomia da criança pode ser um bom caminho a seguir, mas será necessário paciência, é quando tudo se torna mais lento, a paciência começa a ser um exercício diário e a busca por conhecimento e esclarecimento torna-se uma constante na vida de muitos pais.

As habilidades sociais também serão necessárias na vida de um indivíduo com desenvolvimento atípico, assim como na de todos os indivíduos, na nossa sociedade. Atualmente temos crianças que conseguem resolver problemas complexos que envolvem lógica matemática, mas não conseguem ir até a padaria comprar pão.

Ouvindo uma das autistas mais admiradas do mundo, Temple Grandin, podemos perceber razão em sua fala ao se dirigir às mães de crianças autistas sobre esperar. Esperar após dar a instrução, esperar após ensinar, esperar e treinar, treinar e esperar, esperar. Não esperar sem tentar, mas estimular e esperar e ter paciência para treinar.

Treinar habilidades em casa, realizar tarefas, dentro e fora de casa, estimular trabalhos reais, treinar e esperar, nunca fazer por eles, esperem que eles o façam.

Dar escolhas e envolver as crianças nas atividades diárias. Tirar proveito do hiperfoco da criança, ensinar e esgotar aquelas possibilidades.
E para quem diz que devemos, como pais, transformar as características da criança autista em algo bom, assim como acredita Grandin, segue um trecho de “Um antropólogo em Marte” em que Temple diz a O. Sacks: “Não me encaixo na vida social da minha cidade ou da universidade.

Quase todos os meus contatos sociais são com pecuaristas ou gente interessada em autismo. Passo a maioria das minhas noites de sexta e sábado escrevendo artigos e desenhando. Meus interesses são factuais e minha leitura de lazer consiste majoritariamente em publicações científicas ou sobre gado. Tenho pouco interesse por romances com complicadas relações interpessoais, porque sou incapaz de lembrar a sequência de eventos. As descrições detalhadas de novas tecnologias em ficções científicas ou de lugares exóticos são muito mais interessantes. Minha vida seria horrível se eu não tivesse o desafio da minha carreira”.

Voltar-se para as características das crianças autistas e empenhar-se em transformar isso em algo bom pode ser o caminho para muitas famílias e até mesmo pensar que as habilidades básicas para viver podem ser muito mais importantes do que as habilidades acadêmicas.

Para a família nunca será fácil receber a notícia de que a condição de sua criança fará com que ela enfrente desafios ao longo da sua vida, mas os adultos devem ter em mente uma melhor qualidade de vida para o filho e isso envolve:

– buscar ajuda profissional;
– iniciar o tratamento logo no início para garantir melhor qualidade de vida, é importante agir o quanto antes
– incentivar as criança na realização de tarefas;
– criar uma rotina em que a criança tem funções a executar;
– proporcionar  momentos de aprendizagem prática;
– fazê-la praticar atividades físicas;
– ler para a criança;
– tenha tempo para brincar com a criança;
– não se desespere diante das dificuldades cotidianas.
Muito do que ouvimos, vemos e estudamos sobre indivíduos que são capazes de falar como se sentiram e o que tiveram que superar, dentro do desenvolvimento atípico, é muito singular, para alguns funcionará como motivação, para outros não. Mas aqui vai a dica, não podemos deixar de tentar. Assim é a vida. “Toda conquista começa com a decisão de tentar.”

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Sobre o(a) autor(a)
Sandra Paro

Sandra Paro

Sandra Paro é mãe, professora, estudiosa, idealizadora da ABA+, analista do comportamento, consultora de recursos terapêuticos, corajosa, disciplinada e ensaísta para o ABA+
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