4 de dezembro de 2019

Das coisas que ouvimos por aí…

“- Mãe, os meninos não respeitam a Paulinha.
– Como, filha?
– É. Eles falam um monte de coisa feia para ela. Falam que ela é feia e gorda.
– E ela?
– Ela chora e eu falo para ela não ligar que ela sabe que não é assim.
– Mas quem fala uma coisa horrível dessa?
– Muitos, menos o Francisco, ele sabe que tem que respeitar as pessoas. ”

O episódio é, evidentemente, de bullying, mais um, ocorrido em uma escola e envolve crianças entre sete e oito anos de idade. É entristecedor constatar que já nessa faixa etária, elas se manifestem de forma tão cruel e que não é só gente crescida que é capaz de agredir, humilhar e constranger e que o mundo dos pequenos não é só de travessuras sem maiores complicações.

Na verdade, o que acontece entre eles ultrapassa a imaginação de mentes idealistas e românticas.  As agressões são reais, as causas e as consequências são alardeadas por educadores, pais e até crianças. Todos se pronunciam sobre os absurdos e as injustiças que esse tipo de agressão promove.  As escolas interferem, por meio de palestras, campanhas e punições, mas a prática se mantém. Até porque há outros ambientes propícios à violência e é nesses que podemos atuar.

Com base no diálogo entre mãe e filha, pensemos. A criança, que educamos para o mundo, como bem lembra o ditado popular, está exposta a infinitas formas de relacionamento e, em todas elas, há a possibilidade de conflitos. Esses são normais e educativos, mas como a criança provoca e/ou resolve esses conflitos é preocupação e reponsabilidade da família.

Por mais que a escola tente e chame para si essa responsabilidade, a intervenção dela é limitada. Já parou para pensar, qual seria a participação do seu filho ou filha   em casos de bullying? Como mostra o relato infantil, há o autor, o alvo, a testemunha, mas  há também a que acolhe, consola e se indigna.  Então há diferentes formas de agir em grupo e como seu filho ou filha fará isso, depende do seu modelo de educação.
A prática respeitosa e inclusiva deve ser mostrada, incentivada e, principalmente, praticada. Todos sabemos do poder de observação de uma criança, ela reconhece e aponta erros e acertos dos adultos com uma naturalidade impressionante, mas o poder de análise dela é limitado.
Ela entenderá uma piada preconceituosa, um xingamento no trânsito, uma observação sexista, uma depreciação estética e racial, como uma atitude normal e não como uma brincadeira ou um desabafo em um momento de nervosismo. Sua criança agirá como você age e falará como você fala e com a mesma autenticidade.

É preciso entender que   a sociedade pacífica tão esperada, depende dos cidadãos que formamos em casa. Criar e aproveitar situações para discutir diferentes condutas é essencial. Ajustar a sua conduta também. Mostrar que   brincadeiras podem incomodar e magoar e por isso não podem ser feitas, que tratamentos irônicos e truculentos são inaceitáveis e anormais e que o outro deve ser respeitado em qualquer circunstância, mesmo que lhe pareça estranho.
E para finalizar, vale recorrer ao filósofo alemão Martin Heidegger que afirma que nenhum ser humano nasce completo, adquirimos nossas principais características conforme nos relacionamos com o mundo e que somos, antes de tudo, um projeto.
Então mãos à obra.

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