10 de março de 2026

Eu sou o meu baú

Por Mariza Domingues

O desenvolvimento das habilidades emocionais é gradual. Assim, uma criança começa a desenvolver mecanismos para lidar com os sentimentos desde muito cedo. O desenvolvimento das habilidades emocionais acompanha o desenvolvimento neurobiológico. Para exemplificar, pensemos na vivência da frustração. Uma criança, por volta dos 2 anos, já começa a desenvolver mecanismos de lidar com ela, mas só por volta do final dos 4 anos, com o lobo frontal um pouco mais desenvolvido é que esses mecanismos começam a ficar mais visivelmente eficientes, mas ainda longe de serem absolutamente eficientes. 

A vida é progresso e processo e todas as fases são importantes para o desenvolvimento. E não só para viver frustrações, mas para todas as outras experiências que a vida vai oferecer como possibilidades de tornar-se um ser humano com atuação socioemocional mais eficiente. 

Se pensarmos que um ser humano precisa preparar-se até para viver momentos de alegria com validação exata desses, se pensarmos que é preciso em algum momento da infância reconhecer situações como fonte de resiliência futura, entenderemos o quanto as experiências do início da vida são valiosas, quiçá essenciais para que durante toda a vida você possa acessar o baú dos elementos internos que gerenciam nossas emoções em prol de nós mesmos. 

Daí, a importância do caminho – da infância e adolescência, pois é tempo de baú aberto para incorporar todas as experiências. Não basta um “corpo biológico” se desenvolvendo seguindo a natureza. Há nele, o bio/psíquico/social. É preciso pensar na atuação pelo caminho: nas vivências e no impacto de cada uma delas. É aqui também o nosso objeto de estudo, interesse e atuação. 

Pais, educadores, cuidadores e, sinceramente, a sociedade precisa conhecer a importância desse processo para a formação humana. Hoje, criticamos uma geração inteira de jovens e crianças, mas como sociedade, como família, como educadores, como foi nossa atuação?  É urgente a necessidade de termos uma sociedade que compreenda a infância e também a adolescência como partes muito importantes na formação do coletivo e que traz efeitos diretos para a organização, o bem estar, a produtividade, a eficiência, o convívio e valores que a representam.

Não vejo outro caminho. Teremos de conhecer o processo de desenvolvimento humano nos seus aspectos essenciais para se conduzir uma família, educar filhos, para ser profissional da educação, psicólogo escolar e clínico, médico, terapeuta, psicopedagogo e lidar com a infância, adolescência nos seus processos cognitivos, pedagógicos, emocionais e sociais, para ser gestor e propor políticas públicas eficientes que amparem essas etapas do desenvolvimento. Do contrário, seguiremos negligentes e negligência num mundo de informação fácil jamais terá a ignorância como desculpa e sim como escolha.

Abordemos os aspectos do desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Ainda esbarramos na percepção limitada e atrasada de que esse aspecto do desenvolvimento é raso e merecedor de pouca importância. Há hoje inúmeros estudos com “comprovação científica” – e, fique claro aqui que as aspas são usadas como recurso estilístico de reforço – que mostram o quanto esse aspecto é valioso na formação do ser. Vivenciamos diariamente situações que nos escandalizam e comovem e que foram executadas por jovens, homens e mulheres que tiveram e têm oportunidade acadêmica, financeira, familiar e que desreguladamente cometem atos aparentemente imprevisíveis, pois pensa-se que eles têm o suficiente. Nas inúmeras análises, percebe-se que o suficiente não foi o bastante. Faltou algo muito importante também. Faltou a empatia, faltou o autoconhecimento, faltou a autorregulação e faltou a capacidade de conviver de forma proveitosa para si e para o outro. E isso são as habilidades socioemocionais!

Não invocarei nenhuma confirmação científica aqui dada a condição indiscutível de fundamental das habilidades socioemocionais na formação humana. Para além disso! Farei uma abordagem já acreditando que você, caríssimo e interessado leitor, precisa mesmo é fazer parte de um grupo engajado em executar o que lhe cabe para transformar o mundo a partir de si ou até mesmo validar o que você já faz quando se fala de desenvolvimento emocional a partir de uma atuação eficiente, genuína e disposta. 

Sigamos!

Na primeira infância o foco é descobrir a si mesmo. É o encontro com as emoções básicas: alegria, tristeza, frustração, surpresa, medo e raiva. É o conhecer-se na essência básica. Nesse experimento é importantíssimo que a criança seja orientada a reconhecer e nomear emoções. Ela precisa de um cérebro auxiliar que a instrua sobre a situação inata das emoções. É tempo de que a cada manifestação de uma dessas emoções básicas, que elas sejam nomeadas e seu acontecimento naturalizado. Nunca será tempo de classificar emoções em boas e ruins, pois elas são naturais e precisam ser permitidas, pois assim, não haverá luta vã contra a emoção. É tempo agora só de conhecê-las e permiti-las para mais adiante regulá-las em si.

Caminhando pela primeira infância um pouco adiantada é tempo das interações sociais na expectativa de encontrar-se com a empatia. É tempo de descobrir que o mundo vai além de si e é povoado por outros “eus” que te darão as opções de incomodar-se com suas presenças ou acomodar-se na vivência pacífica do compartilhamento. Um apego seguro com o orientador nessa etapa é fundamental, pois a forma como ele mediará e apresentará a situação para a criança determinará o que essa criança colocará no baú: adversários contra um solitário soldado ou parceiros numa jornada compartilhada. Observem que aqui se aprende também o caminho da escolha que nada mais é do que autonomia.

É o início da habilidade socioemocional do convívio social eficiente. Será o tempo das pequenas, mas educativas frustrações. É na frustração de perder um de seus brinquedos para um de seus pares e, no incômodo disso, criar estratégias de retomada da satisfação que aprenderemos a resiliência, a força de continuar e a controlar os impulsos. (É facilmente transferível à vida adulta esse aprendizado ou a falta dele. Basta ver adultos que diante da perda, frustração e incômodo encontram novos caminhos e outros que se descontrolam a ponto de ficarem paralisados na vida ou até mesmo cometerem crimes em busca de sua satisfação forçada.) É o ficar na escola e todo dia ter o reencontro com o pai e a mãe garantindo a conquista da segurança o que garantirá atitude confiante no futuro. Observem que o que parece detalhe, importa! Para quem está experimentando o mundo, tudo é acréscimo para o baú. Acréscimo de conhecimento e conhecimento que vem de vivências e vivências que levam ao desenvolvimento. E eis o resultado de viver: desenvolver-se!

Da segunda infância até a fase de transição para a adolescência, é tempo de as crianças desenvolverem maior autoconhecimento. Conheceram um pouco do mundo e agora é tempo de perceber os efeitos desse mundo em si. Devem ser orientados a observar o que sentem e os efeitos das experiências em si, bem como construir caminhos para lidar com isso. É entender sua singularidade. Ótimo momento para desenvolver a autoestima quando são respeitados em sua individualidade. Não é proveitosa a comparação com os pares nem expectativas paternais de como ele deveria pensar, ser e agir. É tempo do autoconhecimento e, se o que a criança percebe sobre si mesma for contaminado pelos padrões sociais do belo e perfeito ou dos sonhos dos pais poderemos ter plantado a semente de conflitos internos preocupantes na vida futura. 

Será tempo de treinar o foco, disciplina, colaboração, ética, empatia e resiliência. A vida social está mais exigente. Requer filtros, espera, partilha, entrega, organização, execução. É um momento de treino intenso para convívios sociais ainda mais exigentes. É tempo de iniciar a execução da tarefa escolar sozinho, de resolver insatisfações com os colegas a seu modo e de formas mais elaboradas, tomar gosto pelo convívio com os pares e prezar o convívio saudável com parceria, amizade, respeito às diferenças.

É tempo de construir opiniões próprias sem medo dos julgamentos. De tantos “detalhes essenciais” surge um controle inibitório mais eficiente que não permite bullying, que faz escolhas que o representam, que participa sem cobrar algo em troca compreendendo que o conviver é vantajoso para todos, que ouve uma recusa entendendo a normalidade disso, inclusive aprende a usar a recusa a seu favor. Alguém mais forte vai se desenhando. Alguém que alcançará autoconfiança, pois teve permissão para ser genuíno e recebeu orientações de como lapidar essa vida social que vai se intensificando. Daqui, sairá um adulto mais confiante, autêntico, verdadeiro, colaborativo, disposto, compreensivo e eficiente na convivência. Acredite! Observe o caminhar da vida para compreender como tudo importa, como é impossível deixarmos a vida seguir um fluxo desordenado. Por isso, nossa responsabilidade precisa ser acionada diariamente para lidarmos com nossos seres em desenvolvimento.

No fluxo, seguimos para a adolescência. Tempo de tempestades emocionais que só podem ser atravessadas com autoconfiança que é o desafio da vez. É tempo de testar tudo, por isso já são necessários elementos internos para seguir viagem rumo à construção da identidade. É preciso conhecer-se, saber gerenciar as emoções a seu favor, fazer escolhas, ter confiança nas escolhas, ter perseverança, resiliência e esperança no futuro. É preciso ter aprendido a sonhar, pois sonhos alimentam a esperança no futuro e a resiliência no presente. 

Num tempo em que estou me delineando como ser humano, experimentando a vida a partir de mim, o momento é de reorganização do baú da infância. É tempo de faxina nos aprendizados, de dispensa do que não é útil, de abrir espaço para novas conquistas, novos aprendizados, de avaliar o que se é até aqui. Uma condição valiosíssima dessa fase do desenvolvimento é que o baú está aberto. Assim como na primeira infância, tudo colabora para a incorporação e incrementação das habilidades sociais. É uma nova e valiosa oportunidade de crescimento se as condições forem favoráveis, se houver vigilância orientadora, acolhimento, encorajamento, validação das emoções e, principalmente, compreensão e confiança. Aqui, a autonomia vira necessidade, pois é preciso treinar ser social e ser individual. Compreender esse momento como natural, indispensável e valioso trará menos embate e desconforto para pais e profissionais da educação e de atendimento socioemocional. 

A adolescência precisa ser entendida como tempo de necessária escuta ativa e de cérebro em transformação. Numa conversa frouxa, despretensiosa, percebe-se o que está ganhando importância, o que está sendo esquecido, o que provoca desconfiança, incômodo, para que assim, a orientação aconteça. E o mais bonito desse momento é poder ser plateia desse ensaio para a vida adulta. É sentar-se de longe sem poder ditar as regras todas e ver o ensaio. É desafiador para as famílias, escola e sociedade, mas é necessário e será satisfatório. Ganhar a existência é uma das maiores conquistas no processo de desenvolvimento humano e aqui na adolescência há a descoberta da existência e de tudo que sou com a grandiosíssima chance e disposição intensa de fazer reparos, aparas, acréscimos e dispensas.

Ensaio feito, é dia da apresentação. A vida adulta chegou! Com muita resiliência, confiança, controle, esperança, ética, empatia e perseverança o ser se posiciona. As cortinas se abrem e muitos olhares se cruzam, muitas ideias, críticas, questionamentos, aplausos, gostos e desgostos e tudo mira o ator que, de quando em quando, vai ao camarim e busca em seu baú a roupa, a fantasia, o acessório necessário para cada cena que tem que desempenhar. E esse é o teste da vida: saber se o que há no baú é o bastante. 

E, não sendo, o tempo é generoso. Permite infinitamente o acesso ao baú e, mesmo que por frestas de espaço e tempo você poderá futricar nele.

 

 

 

 

Compartilhar

Deixe um comentário

Sobre o(a) autor(a)
ABA +

ABA +

Produtos em destaque
Últimos artigos adicionados